O Mínimo para Viver

O Mínimo para Viver

Netflix  

A autoimagem é um campo minado.  Em tempos de rede social, há uma linha tênue entre uma vida saudável disfarçada de obsessão pelos padrões impostos e aqueles que buscam hábitos saudáveis de fato, enquanto permanecem body positive (e aí isso pode ser magro ou gordo, vai de cada um).  

Nessa coluna  trago como sugestão  o  filme ‘To the Bone’, 2017, do diretor Marti Noxon, que  trata a  anorexia do ponto de vista da pessoa anoréxica, com a  indiferença afetiva que a caracteriza. O filme é protagonizado pela brilhante atriz, escritora e produtora britânica Lily Jane Collins.  

Pois bem, aqui me ocupo de uma cena impactante que aparece quase no final do filme que é quando a mãe de Ellen, já sem esperanças diante do quadro desistente da filha, conta que teve uma premonição antes dela nascer: ela era um bebê e a mãe não a segurava, não havia ligação entre elas…então a mãe diz ter sido orientada por uma terapeuta de que seria benéfico para as duas um resgate desse vínculo… sugere que a filha deixasse ser alimentada e ninada em seus braços naquele momento…

A cena me emocionou porquê mostra a importância de se dissolver os padrões comportamentais que, de alguma maneira, impedem o nosso desenvolvimento. Os problemas e dificuldades podem ser resultado de traumas sofridos.

Ao assistir a cena, não pude deixar de fazer um link com a Constelação Familiar, tema que tenho me dedicado nos últimos anos.

A Constelação Familiar Sistêmica é uma prática transpessoal de cura das relações, desenvolvida pelo alemão Bert Hellinger. Em síntese ele descobriu as 3 Ordens do Amor, leis naturais que atuam nas relações humanas. São elas: a hierarquia, estabelecida pela ordem de chegada ou nascimento; pertencimento, estabelecido pelo vínculo a um núcleo ou família; e o equilíbrio entre o dar e tomar nas relações. De acordo com a constelação familiar, é imprescindível que as dinâmicas familiares sigam essas leis universais chamadas por Bert Hellinger de as Ordens do amor.

Voltando ao tema do filme, Lacan (1998),  afirmava que na anorexia existe uma confusão entre necessidade e demanda por parte da mãe. A necessidade visa à satisfação da criança pelos cuidados vitais; a demanda, por sua vez, é uma convocação ao outro, um apelo. A demanda é uma procura pela presença ou ausência da mãe, uma demanda de amor.

Por meio da inanição a criança busca a mãe para eliminar esse desprazer, todavia, além da satisfação nutricional, a criança procura o Outro materno como alguém que seja capaz de lhe oferecer amor e lhe dar algo além da satisfação da necessidade. Por sua vez, a mãe interpreta incorretamente a solicitação de amor… (Lacan, 1958/1998).

Assistindo ao filme, percebemos que Ellen tem sérias questões internas a serem tratadas – a maioria relacionadas ao seu núcleo familiar.

A obra tem um caráter educativo muito importante, no sentido de que disseca a doença e todos os truques que aqueles que a portam utilizam para enganar a si mesmos – e, por tabela, as pessoas que amam. A transformação física de Lily Collins é bastante contundente e a atriz se doou de corpo e alma a este papel. 

Atenção

Se você ou alguém próximo, está enfrentando esse problema e ainda não encontrou uma saída para vencer, procure a ajuda de um especialista. 

Liz